Olhar para um terreno seco permite perceber muita coisa. Dá para identificar uma parte mais alta, imaginar para que lado existe uma inclinação e reconhecer áreas onde parece provável que a água se acumule.
Quando começa a chover, porém, nem sempre a água confirma essa primeira impressão.
Um pequeno desnível no piso pode mudar sua direção. A borda de uma calçada pode concentrar um fluxo que antes estava espalhado. Um caminho compactado pode conduzir água por vários metros. Muros, degraus, raízes e depressões também interferem no percurso.
Alguns desses detalhes são difíceis de perceber quando o terreno está seco. Com a água passando, tornam-se evidentes.
Por isso, antes de decidir onde receber, infiltrar ou desviar o escoamento, vale observar o que já acontece. Uma forma simples de fazer isso é acompanhar o mesmo terreno antes, durante e depois de uma chuva e registrar as descobertas em um croqui.
Não é necessário medir vazão nem calcular quanta água está passando. O objetivo é outro: descobrir de onde ela vem, por onde passa, onde se concentra, o que interfere nesse caminho e para onde segue.
Antes da chuva, desenhe apenas o que já existe
Comece com um desenho simples do terreno.
Ele não precisa ter escala precisa nem reproduzir cada detalhe. Basta representar os elementos que podem ajudar a localizar depois aquilo que for observado.
Desenhe a casa e outras construções. Marque telhados e, principalmente, os pontos onde existem condutores de água. Acrescente pisos, calçadas, pátios, entrada de garagem e outras áreas impermeáveis.
Também vale diferenciar gramados, canteiros e demais superfícies permeáveis.
Muros, degraus, caminhos e mudanças evidentes de nível devem aparecer. Se houver um ponto claramente mais alto ou mais baixo, marque também.
Nesse momento, tente não transformar o desenho em uma previsão de como a água se comporta. A função do croqui é servir de base para as observações posteriores.
Deixe espaço suficiente para acrescentar setas e anotações quando começar a chover.
Procure as possíveis origens do escoamento
Antes da chuva, também é possível identificar os lugares que provavelmente produzirão escoamento.
O telhado é um exemplo evidente. A água cai sobre uma área grande, é reunida pelas calhas e pode sair concentrada por um condutor.
Pisos, calçadas, pátios e entradas de garagem também merecem atenção. Como a infiltração nessas superfícies é pequena ou inexistente, parte da chuva tende a começar a se deslocar sobre elas.
Observe especialmente as bordas dessas áreas. Por onde a água poderia sair? Há uma queda para o gramado? Uma canaleta? Uma abertura? O piso parece inclinado para algum lado?
Marque essas possíveis origens no desenho, mas não complete o percurso ainda.
Existe uma diferença importante entre o lugar onde a chuva cai e o lugar onde um fluxo de água começa a ficar perceptível. Pode chover sobre todo o telhado, por exemplo, mas boa parte dessa água só aparecerá no terreno concentrada na saída de um condutor.
É esse segundo ponto que interessa quando estamos tentando acompanhar o escoamento.
Quando começar a chover, observe primeiro onde a água aparece
Com a chuva, algumas das hipóteses feitas olhando o terreno seco começam a ser confirmadas. Outras podem desaparecer rapidamente.
Veja quais superfícies realmente começam a produzir escoamento e onde ele se torna visível.
Talvez a água de um piso saia exatamente pelo ponto que parecia mais baixo. Talvez se espalhe por toda a borda. Ou talvez encontre uma pequena irregularidade e siga por um caminho que não era evidente antes.
Observe também como os primeiros fluxos se formam. Em alguns lugares, a água aparece como uma película fina distribuída por uma área relativamente grande. Em outros, rapidamente se reúne em pequenos caminhos.
Marque no croqui os pontos onde você efetivamente viu o escoamento começar.
A partir daqui, o desenho deixa de representar apenas a forma do terreno e começa a registrar o comportamento da água.
Depois, acompanhe o percurso sem tentar corrigi-lo
Escolha um dos fluxos e siga a água.
Veja em que direção ela se desloca e o que acontece ao longo do caminho. Não é necessário registrar cada pequena curva. Procure entender os movimentos que mudam o comportamento do escoamento.
Em determinado trecho, a água pode estar espalhada e depois se concentrar. Mais adiante, pode encontrar outro fluxo e os dois seguirem juntos. Pode ganhar velocidade em uma descida, desacelerar ao chegar a uma área mais plana ou começar a se acumular em uma depressão.
Desenhe setas indicando essas direções.
Se a água se divide, registre os dois caminhos. Se fluxos diferentes se encontram, faça as setas convergirem. Se não for possível acompanhar determinado trecho, não complete o desenho supondo o que acontece.
Durante essa observação, evite colocar objetos no caminho, abrir pequenas valas ou bloquear temporariamente uma passagem para ver se outra alternativa funcionaria melhor.
Isso já seria uma alteração do sistema que você está tentando observar. Primeiro registre o terreno funcionando como ele funciona hoje.
Preste atenção especial ao que muda o caminho da água
Nem sempre a inclinação geral do terreno é o elemento que mais determina o percurso.
Uma borda de poucos centímetros pode impedir que a água atravesse um ponto e fazê-la seguir lateralmente. Um degrau pode concentrá-la. Uma pequena depressão pode segurá-la por algum tempo.
Muros, raízes aparentes, caminhos compactados e pequenas elevações também podem alterar o escoamento.
Quando encontrar um desses elementos, tente perceber o que ele faz.
A água bate nele e muda de direção? Passa a seguir concentrada pela lateral? Espalha-se? Fica represada até atingir determinado nível e depois continua?
Marque no desenho os obstáculos e interferências que parecem realmente alterar o percurso.
Essas observações são úteis porque explicam situações que parecem contraditórias quando olhamos apenas para o relevo geral. A água pode estar seguindo para a direita mesmo quando o terreno parece descer para a esquerda, simplesmente porque encontrou uma pequena barreira que reorganizou seu caminho.
Descubra onde os pequenos fluxos se tornam um fluxo maior
À medida que acompanha a água, observe também os encontros.
Uma faixa de gramado pode receber água de um piso. Alguns metros adiante, esse fluxo pode encontrar a água que veio de um condutor. Mais abaixo, ambos podem se juntar ao escoamento de outra área pavimentada.
O ponto onde isso acontece é diferente de uma superfície simplesmente molhada pela chuva.
Ali existe concentração.
Não é necessário tentar estimar quantos litros estão passando nem transformar a observação em um cálculo. Basta registrar que naquele ponto o fluxo se tornou visualmente maior ou passou a reunir água de mais de uma origem.
Esses encontros ajudam a entender como diferentes partes do terreno estão conectadas pelo escoamento.
Siga a água até onde conseguir
Depois de descobrir de onde a água vem e por onde passa, tente encontrar o final do percurso que é possível observar.
Em alguns casos, ela chega a uma área permeável e parece desaparecer gradualmente. Em outros, forma uma poça.
Pode entrar em uma canaleta ou em um ralo, seguir até a rua, encontrar um muro ou sair do terreno por alguma passagem.
Também pode chegar a um ponto em que você simplesmente não consegue saber para onde vai. Um ralo, por exemplo, permite observar a entrada da água, mas não necessariamente todo o percurso posterior.
Nesse caso, marque o destino como desconhecido.
O mapa não precisa preencher todas as lacunas. Registrar aquilo que não foi possível observar é mais útil do que completar o percurso com uma suposição.
Depois da chuva, volte ao terreno
Quando a chuva termina, algumas informações desaparecem junto com o fluxo. Outras ficam mais fáceis de enxergar.
Procure primeiro pelas poças que permaneceram e pelas áreas que continuam muito úmidas. Compare esses pontos com os lugares onde você viu a água se acumulando durante a chuva.
Depois observe os rastros deixados pelo escoamento.
Folhas e pequenos resíduos podem ter sido carregados e depositados em um ponto de encontro. Sedimentos e marcas de barro podem indicar a direção de um fluxo. Pequenos sulcos mostram lugares onde a água passou com força suficiente para deslocar solo.
Também podem aparecer marcas junto a pisos, muros e outras estruturas.
Use esses sinais para conferir as setas desenhadas anteriormente. Às vezes eles apenas confirmam aquilo que já foi observado. Em outros casos, revelam um caminho secundário que passou despercebido enquanto chovia.
Acrescente essas informações ao mesmo croqui.
Uma chuva mostra um comportamento, não todos os comportamentos possíveis
Um mapa feito durante uma única chuva não deve ser tratado como uma descrição definitiva do terreno.
As chuvas não são iguais.
Uma precipitação fraca pode produzir apenas pequenos fluxos junto às superfícies impermeáveis. Em uma chuva mais intensa, esses mesmos caminhos podem receber muito mais água, encontrar outros fluxos e alcançar pontos que permaneceram secos na primeira observação.
A duração também interfere. Uma chuva curta pode terminar antes que determinada depressão fique cheia. Em um evento mais longo, essa área pode acumular água até começar a transbordar e criar um caminho que não apareceu anteriormente.
As condições anteriores do terreno também variam. Um solo inicialmente seco não se comporta necessariamente da mesma maneira que um solo que já recebeu chuva nos últimos dias.
Quando houver oportunidade, repita a observação em eventos diferentes.
Não apague imediatamente as setas anteriores quando surgir um novo percurso. Pode ser que os dois estejam corretos, mas apareçam em condições diferentes. Acrescente uma anotação indicando em qual situação aquele caminho foi observado.
Com o tempo, o desenho deixa de representar apenas uma chuva e começa a mostrar diferentes comportamentos possíveis do terreno.
Monte o mapa final do escoamento observado
O resultado não precisa parecer uma planta técnica.
Ele precisa permitir que você olhe para o desenho e consiga reconstruir o que viu acontecer.
Para isso, procure deixar cinco informações identificáveis.
1. Origem
Marque os pontos onde o escoamento começa ou aparece concentrado.
Pode ser a saída de um condutor, a borda de um piso, uma entrada de garagem ou qualquer outra superfície que tenha produzido um fluxo observável.
2. Percurso
Use setas para mostrar a direção da água.
Se existirem vários caminhos, registre todos os que foram observados.
3. Concentração
Marque os pontos onde fluxos diferentes se encontram, onde a água passa a ocupar um caminho mais definido ou onde existe acúmulo.
Um círculo ou outro símbolo simples já é suficiente.
4. Obstáculos e desvios
Indique os elementos que interferem de maneira perceptível no percurso: degraus, muros, bordas, pequenas elevações, depressões ou outras barreiras.
Uma anotação curta pode registrar o efeito observado, como “desvia para o gramado” ou “água acumula antes de passar”.
5. Destino
Por fim, registre até onde foi possível acompanhar cada fluxo.
Pode ser uma área onde a água aparentemente infiltra, uma poça, um ralo, a rua ou a saída do terreno. Quando não for possível saber, escreva simplesmente que o destino não foi identificado.
Não é necessário adotar uma simbologia específica. Setas, círculos e algumas anotações são suficientes, desde que o desenho continue legível.
O mapa mostra o que a água faz. Não diz sozinho o que deve ser construído
Depois desse exercício, você terá uma informação que não aparece claramente quando o terreno está seco: como diferentes partes do lote se conectam quando começa a chover.
Isso ajuda a evitar decisões baseadas apenas na aparência do espaço. Um ponto aparentemente adequado pode estar fora do percurso do escoamento. Outro pode receber água de muito mais lugares do que parecia inicialmente.
O mapa, porém, não informa quanto de água passa por esses caminhos. Também não determina a capacidade de infiltração do solo, o volume que precisaria ser recebido nem as dimensões de uma eventual intervenção.
E, sozinho, não define onde deveria ficar um jardim de chuva.
Ele registra o funcionamento atual do terreno. Depois, essa informação pode ser combinada com as demais condições necessárias para avaliar uma solução.
Antes de mudar o caminho da água, portanto, vale descobrir qual caminho ela já encontrou.